O dia 16 de agosto marca o aniversário do Poeta Oliveira Silveira, considerado um dos mais importantes poetas do Rio Grande do Sul e do Brasil, pela sua obra. 

Oliveira Silveira nasceu em 16 de agosto de 1941, no interior do município de Rosário do Sul, na Serra do Caverá. Deste local saiu para estudar e se formar em Letras na capital do estado gaúcho.

Em Porto Alegre construiu sua carreira de professor da língua portuguesa e literatura. Organizou a vida, a família, a profissão, o ativismo cultural e escreveu uma das mais importantes obras poéticas do sul do país, com foco nas memórias da escravidão africana no país e américas.

Oliveira Silveira participou de movimentos que deram origem para a criação do Dia Nacional da Consciência Negra, em homenagem ao líder Zumbi dos Palmares, data estabelecida para 20 de novembro.

Escreveu e publicou 10 pequenos livros artesanais, feitos em pequenas gráficas, porém importantes para o contexto da literatura gaúcha e brasileira.

Após sua prematura morte em 1º de janeiro de 2009, saíram as primeiras coletâneas de seus poemas. A VCS Editora foi a rimeira que publicou em um único livro a obra completa do poeta da Consciência Negra. Depois vieram outras que reuniram seus melhores e mais significativos poemas.

Oliveira Silveira foi autor de diversos estudos, reportagens, obras literárias em torna da temática negra, tendo publicado mais de dez obras individuais, além de participar de diversas outras coletivas, sendo que muitos de seus poemas encontram-se publicados em Antologias. Seu primeiro trabalho poético reunido sob o título Geminou, é de 1962. Em sua obra poética, constam releituras de cânones da literatura nacional em que Oliveira Silveira elabora uma contranarrativa, negando valores então hegemônicos e ressignificando o lugar do negro na sociedade. Dentre diversos poemas nessa perspectiva, está A outra nega Fulô, em que o poeta elabora uma contranarrativa ao poema Essa nega Fulô de Jorge de Lima retirando da personagem o aspecto passivo e de objeto sensual do homem branco.

O poeta virou nome de rua em Porto Alegre e de Centro Cultural em Rosário do Sul.

 A seguir algumas de suas obras:

  • Geminou (1962)
  • Poemas Regionais (1968)
  • Banzo Saudade Negra(1970)
  • Décima do Negro Peão (1974)
  • Praça da Palavra (1970)
  • Pelo Escuro (1977)

     

  • MÃO-DE-PILÃO

    Água no oco,

    palha, grão.

    Soca, soca,

    Mão-de-pilão.

    Longe que é, longe que fica

    e a mão-de-pilão esmurrando a cangica.

    Longe que é, longe que fica

    e a mão-de-pilão tocando cuíca. 

    Água no oco,

    palha, grão.

    Soca, soca,

    mão-de-pilão.

  • Socando, socando aos sol da manhã,

    o eco na serra parece tantã.

    Bate, bate... pra quê bate tanto?

    Longe tão longe que não adianta.

    Água no oco,

    palha, grão.

    Soca, soca,

    mão-de-pilão.

     

    O MURO

    eu bato contra o muro

    duro

    esfolo minhas mãos no muro

    tento longe o salto e pulo

    dou nas paredes do muro

    duro

    não desisto de forçá-lo

    hei de encontrar um furo

    por onde ultrapassá-lo. 

     

    TRANSMISSÃO

    Querem que a gente saiba

    que eles foram senhores

    e nós fomos escravos.

    Por isso te repito:

    eles foram senhores

    e nós fomos escravos.

    Eu disse fomos.

     

    NEGRINHO

    Um naco de fumo escuro

                       negrinho

    da tua cor, no monturo.

    Um toco de pito aceso

    negrinho

    cor de teu sangue indefeso.

    Muito estancieiro safado

    negrinho

    formigueiro à beira-estrada.

    Contra as manhas dessa malta

    negrinho

    se vai de cabeça alta.

    E peço: clareia o rumo

    negrinho

    de teus irmãos cor de fumo.

     
     

    Extraídos de: ANTOLOGIA CONTEMPORÂNEA DA POESIA NEGRA BRASILEIRA, organização de PAULO COLIMA.  São Paulo: Global Editora, 1982.  103 p.