COLUNA DO GILMAR
A extinção do IGTF e o abandono da política cultural das tradições gaúchas
   
Decisão política que enfraqueceu uma das principais estruturas públicas voltadas à preservação da identidade cultural gaúcha

Por Gilmar Pinto
21/04/2026 21h05

A extinção do IGTF e o abandono da política cultural das tradições gaúchas

Em 2017, durante o governo de José Ivo Sartori, foi extinto o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF), órgão histórico responsável pelo estudo, preservação e divulgação do folclore e da cultura popular do Rio Grande do Sul.

A medida foi apresentada como parte de um ajuste fiscal. Na prática, porém, representou uma decisão política que enfraqueceu uma das principais estruturas públicas voltadas à preservação da identidade cultural gaúcha.

A trajetória do IGTF é longa e relevante. Suas origens remontam à Comissão Estadual de Folclore, criada em 1948. Em 1954, a iniciativa evoluiu dentro da Secretaria de Educação com a criação do Instituto de Tradição e Folclore. Já em 1974, foi instituída oficialmente a fundação, consolidando o IGTF como referência estadual na área.

Sua missão era clara: recolher, analisar e divulgar o folclore gaúcho. Vinculado à Secretaria de Cultura, o instituto reuniu um dos mais importantes acervos do Estado, com destaque para a Biblioteca e Hemeroteca Glaucus Saraiva, além de registros sobre música, dança, indumentária, costumes e tradições.

Ao longo das décadas, o IGTF produziu conhecimento, publicou obras fundamentais e contribuiu diretamente para a formação cultural e educacional do Rio Grande do Sul. Por sua estrutura passaram importantes pesquisadores, agentes culturais e nomes relevantes da vida pública.

Nos anos que antecederam sua extinção, no entanto, o instituto já enfrentava dificuldades. A falta de investimentos, a descontinuidade de projetos e a perda de seu quadro técnico reduziram significativamente sua capacidade de atuação. Pesquisas deixaram de ser realizadas, publicações foram interrompidas e o órgão passou a funcionar mais como arquivo do que como centro ativo de produção cultural.

A imprensa e diversos setores da cultura alertaram para esse cenário. O desmonte progressivo da instituição e, posteriormente, sua extinção, foram interpretados como uma perda significativa para a política cultural do Estado.

Com o encerramento do IGTF, seu acervo foi fragmentado entre diferentes instituições. Embora preservado, perdeu unidade, dificultando o acesso por pesquisadores, educadores e agentes culturais.

Hoje, o Rio Grande do Sul não conta com uma estrutura equivalente. As ações voltadas ao folclore e à tradição permanecem dispersas, sem coordenação central, sem prioridade e sem a mesma capacidade técnica.

A ausência do IGTF evidencia uma lacuna na política pública cultural. A tradição gaúcha não se sustenta apenas pela iniciativa da comunidade; ela exige presença do Estado, investimento contínuo e planejamento.

A extinção do instituto marcou um período em que a cultura foi tratada como custo — e não como patrimônio. Seus efeitos ainda são sentidos e reforçam a necessidade de reconstruir uma política pública sólida, capaz de valorizar e preservar a identidade cultural do povo gaúcho.

Mais do que lembrar o passado, é preciso assumir o compromisso com o futuro da nossa cultura.

Gilmar Pinto
Produtor Cultural


   

mode_emailEnviar E-mail

  Fechar E-mail

  

menu
menu